Do Hi-Top Game ao RGH: O Castlevania SOTN e a Resistência Gamer no Capitalismo Tardio

Do Hi-Top Game ao RGH: O Castlevania SOTN e a Resistência Gamer no Capitalismo Tardio

Por Paulo Henrique “Biano” do Nascimento

Se você cresceu nos anos 90 jogando videogame e ouvindo som pesado, você sabe que a mídia física tem alma. O encarte do CD, o encarte do vinil, o cheiro do manual de papel… tudo isso faz parte do ritual. Por isso, olhar para o cenário atual dos games dá um nó no peito. Recentemente, fomos bombardeados com notícias de que as próximas gerações de consoles pretendem abolir de vez os discos. Para o mercado, o futuro é 100% digital. Para nós, é o ápice de uma mercantilização barata e sem alma.

Minha história com os games começou na raça. Eu tinha uns 13 para 14 anos quando ganhei do meu pai um Hi-Top Game, um clássico clone brasileiro de Nintendinho de 8 bits fabricado pela Milmar. Naquela época, o Super Nintendo e o Mega Drive já estavam bombando nas locadoras, mas eram artigos de luxo intangíveis para a realidade da imensa maioria da classe trabalhadora. Enquanto o mercado ditava o topo da cadeia, a periferia se virava como podia. E a diversão era menor por causa disso? De jeito nenhum.

Foi naquele console preto com detalhes amarelos que eu conheci a frustração e a glória de Yo! Noid — aquele jogo absurdamente difícil da Capcom com o ioiô do entregador de pizza — e os primeiros Mega Man. Não tinha moleza de detonado no YouTube ou guia fácil no Google. O que não saía nas páginas rasgadas da Ação Games ou da SuperGamePower, a gente tinha que descobrir na persistência, conversando no recreio da escola ou dividindo o controle na raça.

Credito : Indie Game Chick

Essa escola de persistência foi a base para que, anos mais tarde, o mundo testemunhasse a evolução máxima desse formato: Castlevania: Symphony of the Night (SOTN). Nascido da semente de exploração plantada por Super Metroid, o clássico de 1997 da Konami pegou a atmosfera gótica, misturou com elementos de RPG e entregou a maior obra-prima de todos os tempos. Para quem é headbanger, aquilo foi um marco divino: a trilha sonora de Michiru Yamane uniu rock progressivo, guitarras pesadas de heavy metal e música clássica de um jeito que conversa diretamente com o coração de quem gosta de som extremo. Eu tenho orgulho de guardar o CD original dessa trilha até hoje.

Crédito: gamerdesconstrutor

Mas a indústria atual do capitalismo tardio operou uma mutação bizarra. O jogo, que antes era focado puramente na imersão e na diversão, virou um simulador de segundo emprego. O lazer foi transformado em produtividade monitorada. A molecada de hoje não joga mais para se perder no mapa, testar as magias do Alucard ou sentir a névoa gótica do castelo; jogam com uma lista de tarefas burocráticas do lado, bitolados em pipocar a “Platina” ou as “Conquistas” na tela. O game virou um acessório para alimentar o ego de rede social, o famoso “se aparecer”. Antigamente, a nossa maior recompensa era descobrir o Castelo Invertido por conta própria e ter a mente explodida pela experiência, não por um troféu virtual vazio.

Para piorar, o mercado se tornou uma aberração predatória. Chegamos ao ponto ridículo onde o jogador paga uma fortuna em uma “Edição de Colecionador” na pré-venda e recebe em casa uma caixinha de plástico vazia, contendo apenas um pôster e um pedaço de papel com um código impresso. Sem disco, sem mídia física, sem a posse real. Você paga caríssimo para alugar uma licença digital que as empresas podem revogar do servidor quando bem entenderem. É o monopólio dos preços e a gourmetização extrema do nada.

É por isso que, contra esse sistema que cobra preços abusivos, destrói a memória física, entrega jogos incompletos para vender DLCs picadas e foca no status em vez da diversão, o download “de forma estranha” — a pirataria, o RGH, a emulação — se tornou uma ferramenta legítima de resistência cultural e preservação histórica.

Se não fossem as vias alternativas e a comunidade mantendo a cena viva nos bastidores underground da tecnologia, onde estaria a memória do Hi-Top Game? Onde estaria a chance de um trabalhador reviver o desafio do Yo! Noid ou experimentar o próprio Symphony of the Night na TV hoje em dia, sem ter que penar na mão de especuladores mercenários de cartuchos e CDs usados?

O mercado pode até tentar matar os discos e trancar a arte atrás de paredes de códigos digitais caríssimos. Mas a nossa liberdade de ligar o console antigo, colocar a trilha sonora no talo e resgatar a nossa história na marra… essa eles não vão conseguir platinar.


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Biano/Paulo

Editor do NoiseRed. Defensor do metal como movimento internacionalista e 100% antifascista. Do underground brasileiro para o mundo, propagando a música extrema que desafia o sistema.

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