A Falência do Empresariado no Rock: Onde foi parar a coragem de investir no novo?

Arte editorial do portal NoiseRED mostrando um público de costas para um palco de rock com a frase 'A falência do empresariado no rock: onde foi parar a coragem de investir no novo?

Recentemente, uma reflexão necessária tomou conta das redes através de Sylvia Sussekind (Selo Electric Funeral / Collapse Agency). Em um vídeo contundente, Sylvia “lançou a real” sobre a estagnação do mercado fonográfico brasileiro no segmento Rock/Metal. A provocação central? A falta de visão e de atitude dos grandes empresários e selos em apostar em quem está começando.

Sylvia resgatou uma história emblemática contada por Rodolfo Abrantes (ex-Raimundos). Nos anos 90, os Titãs, através do selo Banguela Records, não apenas assinaram com os Raimundos, mas os levaram para a estrada. Antes de cada show, os Titãs subiam ao palco para apresentar a banda nova ao seu próprio público: “Galera, essa é uma banda nova, curtam o som deles”.

Essa “benção” de quem já estava no topo criou um dos maiores fenômenos do rock nacional. Hoje, décadas depois, o Brasil continua sendo um dos maiores celeiros de bandas do mundo — produzindo material de alta qualidade mesmo sem os recursos da Europa ou EUA — mas falta essa “ponte”. O empresariado atual parece ter trocado o risco artístico pelo conforto dos algoritmos e da nostalgia.

Para aprofundar o debate, o NoiseRED ouviu músicos e produtores que vivem o dia a dia dessa luta. Confira as visões de quem sente na pele a “falência” do investimento no novo:

O Preço do Ingresso na Indústria

Hardent (Hardcore – SC): “A música virou uma roda-gigante na qual só tem direito de dar uma ‘volta’ quem pagar o valor de um ingresso exorbitante. Esse valor não é pago com empenho, dedicação ou boas músicas; ele só é aceito em dinheiro. […] O desafio maior talvez esteja em se criar festivais ou circuitos com cunho autoral, oportunizando esse espaço. Vale lembrar que, para ser notado, o festival deveria ter uma campanha de marketing grande, a fim de chamar atenção como os grandes festivais do país.”

Arte vs. Produto Descartável

Föxx Salema (Cantora e Compositora):
Com décadas de estrada e resultados expressivos — como os CDs físicos ‘Rebel Hearts’ esgotados e a marca de 1 milhão de streams no Spotify — Föxx Salema traz uma perspectiva de quem entrega

profissionalismo, mas ainda esbarra na visão limitada do mercado:
“O maior desafio hoje não é apenas produzir música de qualidade, mas encontrar parceiros que enxerguem além dos algoritmos. O mercado muitas vezes busca o ‘lucro imediato’, ignorando a construção de um legado sólido. É preciso encontrar quem valorize o trabalho sério que desenvolvo com meu marido e tecladista Cleber; nós tratamos a música como arte e não como um produto descartável.”

O Oportunismo do “Hype”

Manu Joker (Uganga): “Cara, eu simplesmente não tenho essa resposta. Qual o papel dos selos? E dos empresários? Muitos deles, tanto um quanto o outro, esperam que você “hype” de alguma maneira, por sua conta, pra depois se interessar por você . Antes havia uma construção conjunta, agora em muitos casos é oportunismo e só. Eles querem produtos e não prospectos sacou? Em sua grande maioria estão interessados no hoje e cagam pro amanhã… É claro que não posso generalizar, sempre alguém estará fora da caixinha, e geralmente ai nascem as parcerias reais e mais produtivas. Mesmo essas tem prazo de validade. Eu penso que antes de tudo uma banda deve aprender a sobreviver sem a onipresença dessas duas figuras, e estar atento às parcerias que aparecem para somar com quem vale realmente à pena. Já estivemos ligados a selos, já tivemos empresários, já tivemos produtoras conosco e já corremos sozinhos também. É um dia após o outro de um aprendizado que não para e de ações que não podem ser padronizadas.
Antes de tudo se conhecer enquanto artista/banda e estar sempre “atentos aos sinais”, como já disse o mestre Ney Matogrosso.”

A Barreira do Esforço Intelectual

Pedro Valença (Pandemmy): “Nós acreditamos que o maior desafio para conseguir um acordo justo, tanto para a banda quanto para um selo ou um empresário, é a garantia de retorno para ambos. O mercado musical está saturado, e a situação piorou com ‘artistas’ gerados por IA. Acreditamos que há público na cena rock/metal brasileira, mas existe uma barreira que mistura a busca pela nostalgia e, principalmente, a falta de esforço intelectual das pessoas em ouvir novos álbuns. Ouvir uma nova composição, um novo artista, exige um pequeno esforço para assimilar essa novidade. Mas parece que o público que frequenta exclusivamente o circuito mainstream só se importa com turnês de reuniões, de despedidas ou de álbuns clássicos.

Então, pensamos que é difícil para os selos se manterem lançando e distribuindo material físico, assim como é difícil para os empresários (aqueles que realmente têm um interesse artístico) obterem um retorno justo.”

O Fim da Visão Romântica das Gravadoras

Gil Freitas (SubRock): ” Acho que o desafio é entender que não existe mais o lance da gravadora/selo na visão de antes.
Hoje, a banda precisa construir por sim só sua base de fãs, e isto requer investimento tanto em dinheiro, quanto em esforço.
Já na questão de selos, hoje em dia há alguns selos independentes que ajudam na curadoria de bandas e eles podem ser aliados nesta luta das bandas . (Como a SE Record’s por exemplo)”

Profissionalismo e Marketing como Saída

Gustavo “Gustroyer” Kölndorfer: ” Há alguns fatores que implicam no crescimento das bandas na cena brasileira e conseguir mais suporte, parcerias/patrocinios e empresários para investir na banda. Infelizmente um deles é o fato de ser uma banda brasileira, o publico ainda da mais valor as bandas internationais. Mas com as facilidades de gravação, produção, filmagem e lançamento de videoclips, hoje em dia as bandas nacionais não devem nada para a cena gringa.
Acredito que o segredo para as bandas independentes esta no planejamento e marketing. Se a banda seguir um planejamento e ter metas, sejam elas finaceiras ou conquistas, ajuda a banda à seguir um ritmo de trabalho. Sempre estará ativa, em movimento. Focando no proximo passo do planejamento ou meta.

O Marketing provavelmente é a parte mais importante para o crescimento de uma banda, nao adianta você ter uma musica maravilhosa se você não mostra ela para ninguem. Com um bom marketing você chamará a atenção do publico, de um selo, de um empresário, de marcas e etc. E com as redes sociais e a internet hoje, não há desculpas para você não promover o seu produto/banda.
PS: Ter noções basicas de gravação, produção, filmagem, edição de video e fotos é um diferencial e facilitara muito o processo da sua banda. Infelizmente hoje em dia só ter talento não é o suficiente.””

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A nossa matéria trouxe vozes importantes, mas o NoiseRED quer ouvir você. Se você está à frente de uma assessoria, gravadora independente, é produtor de eventos ou músico autoral, este espaço também é seu.

Queremos saber:

  • Como você enxerga o papel do empresariado hoje?
  • O que falta para a “ponte” entre o underground e o mainstream ser reconstruída?
  • Ainda existe espaço para a aposta real no “novo”?

Como participar: Deixe sua opinião nos comentários abaixo ou, se preferir um relato mais detalhado, envie para nós através de nossas redes sociais (@noiseredoficial). As melhores reflexões podem ser incluídas em uma futura atualização deste editorial.

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