Com mais de três décadas de estrada, o Uganga chega a 2026 reafirmando sua posição como uma das entidades mais resilientes do metal pesado brasileiro. Em entrevista exclusiva ao NoiseRED, o lendário Manu Joker abre o jogo sobre o novo álbum “Ganeshu”, uma obra que funde o misticismo de Ganesha e Exu para remover obstáculos e traçar novos caminhos.
Da experiência transformadora de 30 horas em um barco pelo Rio Marajó às mudanças de formação que injetaram “sangue novo” no grupo, Manu detalha o processo de criação de um disco que é, ao mesmo tempo, um manifesto audiovisual e um exercício de liberdade sonora. Prepare-se para mergulhar em um crossover livre, com cheiro de cerrado, incenso e resistência.

NoiseRed: Olá Manu , muito obrigado por nós conceder essa pequena entrevista .
Desejamos a vocês um Feliz 2026.
Manu Joker: Salve pessoal, feliz 2026 pra geral aí. Eu que agradeço pelo interesse no nosso trabalho, vamo nessa!
O Manifesto Audiovisual (“A Profecia”)
NoiseRed: A dualidade do clipe: Manu, o clipe de “A Profecia” une duas formações e dois estúdios diferentes (Rocklab e Toka). Como foi para você, visualmente, costurar o passado recente e o presente da banda nesse “manifesto de sobrevivência”?
Manu Joker: Cara foi algo um pouco complicado mas necessário. Primeiro pra valorizar tanto a formação que gravou o álbum quanto a atual, que segue levando o legado adiante. Por outro lado serve também pra mostrar que independente das mudanças radicais que tivemos, em especial do “Libre!” pra cá, nós preservamos nossa identidade e seguimos evoluindo. O Rocklab é onde gravamos “Ganeshu”, assim como “Servus” e “Opressor”, e temos muito material audiovisual dessas sessões. Nós amamos aquele lugar! Já o Toka é nosso local de ensaio, pertence a um ex-integrante (O guitarrista Thiago Soraggi), é na nossa área e tem tudo a ver usarmos essas duas locações pra ilustrar um pouco desses dois momentos. Estamos lançando um documentário em quatro partes que vai fundo nessas questões e o primeiro episódio acaba de sair.
NoiseRed: Você mencionou que o vídeo é “bem punk mesmo”. Em um mundo de superproduções de metal, qual a importância de manter essa crueza visual para passar a mensagem do Uganga?
Manu Joker: Eu penso que antes de tudo é preciso usar a criatividade e o pessoal da Baurete Produções ao meu ver mandou muito bem. Temos clipes com produções mais caras e complexas como “Confesso” ou “Libre” e outros mais crus como “A Profecia”. A ideia é trazer as pessoas pra nossa sala de ensaio e também pro estúdio de gravação, ter um pouco da nossa perspectiva nesses dois locais. E mostra ambos os times em ação, pois o disco é recente mas o momento já é outro. Usamos também algumas imagens da banda na viagem de barco entre Belém e Portel no meio do clipe. Essa viagem foi muito importante pra estarmos aqui agora falando sobre nosso momento atual.
A Experiência Amazônica (O Rio Marajó)

NoiseRed: A viagem de 30 horas de barco pelo Rio Marajó em 2023 é citada como crucial. O que aconteceu ali, no silêncio ou no caos da floresta, que definiu o conceito de Ganeshu?
Manu Joker: Cara, essa viagem realmente é um marco na nossa trajetória e tem a ver com uma espécie de renascimento da banda. Quando fomos pro Pará, pra participar dos festivais Dia D e Porthell, a banda estava reduzida a um trio depois das saídas do Humberto (guitarra) e Marco (bateria). O Juninho (novo baterista) já tinha aceitado o convite para se juntar ao UG, mas não teve tempo de se envolver com essa viagem devido a outros compromissos previamente agendados. Ainda éramos um trio, e sendo bem sincero com você eu não sabia até onde aquele trio iria. Muita coisa estava acontecendo nas nossas vidas, cada um estava num momento específico e depois de mais de duas décadas tocando juntos eu sentia que o ciclo daquela formação estava chegando ao fim. Acho que todos sentíamos isso. Mesmo assim nós três, eu, Christian (guitarra) e Ras (baixo), decidimos por fazer essa viagem e optamos pela arriscada solução de contar com músicos locais para cumprir as duas datas. Isso com míseras duas horas de ensaio (risos)! Por sorte esses dois músicos eram Alexandre Durães e Vitor Hugo, duas figuras de respeito da cena Paraense, e a química com nossos irmãos do norte foi ótima. A viagem foi incrível, a amizade do trio inclusive se fortaleceu depois dela, mas as mudanças só estavam no início. Naquelas 30 horas de barco, deitado na rede, ouvindo Guitarrada Paraense e Dub Jamaicano tocado pelo DJ do barco, e vendo uma imensidão de água e mata à minha volta eu comecei a pensar no conceito do álbum, a entender o momento de transição que vivíamos e a pensar no que viria depois. E estava muito em paz com tudo isso mano, real. A primeira parte do documentário “Ganeshu: 3 Décadas, 4 Elementos” já está disponível no nosso canal do YouTube e trata exclusivamente dessa viagem. A segunda parte será disponibilizada ainda em janeiro e mostra o que acontece depois e como chegamos no novo álbum.

Público e banda Uganga durante apresentação ao vivo em Araguari.NoiseRed: Como o contato com os festivais “Dia D” e “Porthell” no Pará influenciou a sonoridade do álbum? Podemos dizer que o Uganga voltou da Amazônia “ainda mais brasileiro” ?
Manu Joker: No nosso caso é inevitável que as experiências na estrada nos influenciem, ainda mais uma tão incrível quanto essa. Eu sempre vi o Uganga como uma banda que faz rock pesado brasileiro, todos nossos álbuns sem exceção trazem elementos da nossa cultura, do cerrado mineiro, e das nossas experiências rodando não só por todas as regiões do Brasil como por outros países também. Apesar disso nós não tentamos forçar a inclusão de determinados elementos para parecer mais regionalistas ou algo assim. Vejo algumas bandas fazendo isso e em determinadas situações chega a ser constrangedor (risos). Antes de tudo somos uma banda de crossover, porém nunca nos fechamos nisso. Usamos esse crossover como a base de uma receita musical que carrega outros ingredientes e que não se prende a normas pré estabelecidas ou a preocupação em agradar determinado setor de crítica ou público. Uganga é crossover livre com cheiro de coturno, incenso e ganja.
NoiseRed: O álbum conta com o registro de Jean e Ras, mas hoje vocês seguem com Igor e Vinícius. Como foi o processo de transição para garantir que a essência do Uganga permanecesse intacta com a entrada de sangue novo?
Manu Joker: Foi normal, parte de algo que já vivemos antes e que pode acontecer no futuro pois nada é definitivo. Bandas passam por mudanças, fato, e lido bem com isso. Jean veio quando o Christian saiu, decidimos a partir dali ficar como quarteto usando novamente só uma guitarra e já tendo o Juninho cuidando da batera. Compusemos um belo álbum juntos nós quatro, mas sabíamos que aquela formação não poderia se dedicar com o mesmo afinco às tours. Quando chegou o momento falamos disso e o Uganga seguiu sem eles. Jean somou muito forte na pré do Ganeshu, Ras esteve na banda por 22 anos e agora Vinícius e Igor estão cuidando muito bem da guitarra e do baixo. Acredito que vamos compor e gravar um próximo álbum que leve a sonoridade de “Ganeshu” adiante. Nosso DNA não muda, só evolui, e a nova formação prova isso.
NoiseRed: Como foi a experiência de gravar no Toka Studio com a formação atual em comparação com o processo no Rocklab?
Manu Joker: Na verdade nós gravamos somente no Rocklab, fazemos isso desde 2013 quando iniciamos os trabalhos pro “Opressor” e acredito que o próximo também será lá. O Toka é onde a gente ensaia e eventualmente compõe. O clipe de “A Profecia” mostra a banda gravando o “Ganeshu” no Rocklab em Anápolis (GO) e depois, a formação atual ensaiando no Toka em Uberlândia (MG).
O Documentário e o Futuro
NoiseRed: Por que decidiram dividir a história dessa jornada em 4 episódios? O que os fãs podem esperar ver nesses vídeos que a música sozinha não consegue contar?
Manu Joker: Primeiro porquê infelizmente a maioria das pessoas não consegue assistir mais a um longa metragem de duas horas (risos). Isso é triste mas real, o nível de ansiedade é tanto que tem pessoas se “informando”, entre todas as aspas possíveis, com cortes. Algo que além de triste é patético. Levando isso em conta optamos por 4 episódios com média de 20 minutos cada, e batizamos essa tetralogia com o título “Ganeshu: 3 Décadas, 4 Elementos”. O primeiro episódio (Água) já está disponível, como disse, no nosso canal do YouTube e o segundo (Fogo) está pra sair. Esse segundo episódio aborda o período pós Pará onde o incrível número de 12 pessoas passaram pelo UG (risos). Foi no ano de 2024 quando incêndios criminosos varreram o país e vimos isso de muito perto em nossas viagens. O terceiro episódio (Terra) é todo focado nas gravações de “Ganeshu” e o quarto (Ar) é sobre nosso momento atual e o futuro.
NoiseRed: Ganeshu (O Conceito): O título remete a Ganesha (removedor de obstáculos). Olhando para a trajetória da banda desde 2023, quais foram os maiores obstáculos que esse álbum ajudou a remover?
Manu Joker: Esse título funde as entidades Ganesha e Exu e ambas são removedores de obstáculos, ambas te levam para novos caminhos e tiram da sua vida aquilo que já não tem mais ligação com você. Em 2023 nós já tínhamos 3 décadas ininterruptas na estrada e com certeza enfrentamos muitos obstáculos nesses 30 anos. 2023 trouxe não só outros obstáculos mas também conquistas e nos lembrou do quão resilientes somos. Dois anos se passaram desde então mas às vezes tenho impressão que foi uma década atrás, pela quantidade de coisas que vivemos nesse período.
Bate-Pronto (Finalização)
NoiseRed: Para quem vai dar o play em “A Profecia” agora, qual o estado de espírito ideal para absorver o álbum?
Manu Joker: Eu penso que antes de tudo ouvir ao menos uma vez o álbum na ordem vai te mostrar coisas que a audição picada não mostra. A ordem, as vinhetas, o tempo de duração, tudo tem um propósito. Estou falando de pouco mais de 20 minutos pra que se descubra isso, todas essas interconexões. A audição é rápida tipo “Reign In Blood” do Slayer, “Cavalo De Pau” de Alceu Valença ou mesmo o “Rotting” do Sarcófago. Quanto ao espírito pra se ouvir “Ganeshu”, eu penso que o ideal é separar um momento tranquilo para essa audição e tentar fazê-lo com um equipamento decente ou um par de fones idem. Está cada vez mais difícil nos dias de hoje para para só ouvir música, sem fazer outra coisa junto, e eu acho isso um exercício válido.
NoiseRed: O que vem por aí em termos de turnê para levar o conceito de Ganeshu para os palcos em 2026?
Manu Joker: Queremos pegar muita estrada até o meio do ano, quando acaba a “Ganeshu Tour”. Já temos datas sendo fechadas em várias regiões e vejo a banda rodando bastante em 2026. No primeiro semestre além de estrada teremos pré produção e no segundo semestre vamos seguir com as apresentações mas também gravar o novo trabalho. Temos um ano interessante pela frente.
NoiseRed: “Manu, o Uganga já está na estrada desde 2002, com uma discografia bem robusta. Eu acompanho o trabalho de vocês e já ouvi tudo, mas a minha relíquia física na estante é o ‘Vol. 3: Caos Carma Conceito’, de 2010. Naquela época, o som já era muito denso.”,você consegue perceber diferenças de 2010 para a época atual ?
Manu Joker: Na verdade nosso primeiro full é de 2002 mas o Uganga começou em 1993. Faz muito tempo e as vezes eu viajo nisso. Diferenças entre a banda de 2010 e a de hoje? Várias. “Vol.3…” é um álbum extremamente importante em nossa discografia, ali a banda encontrou seu som. Isso posto estamos falando de 15 anos atrás, foi gravado pela formação que mais tempo ficou junta e estávamos realmente empolgados naquela fase. É um disco que abriu portas, foi lançado no exterior e nos levou para nossa primeira tour internacional, tenho muito orgulho dele. Foi o segundo trabalho que fizemos no Orbis Estúdio em Brasília e dividimos a produção com nosso grande amigo Riti Santiago (Câmbio Negro, More Tools, Cirrhosis etc). O Uganga de hoje segue naquela trilha porém estamos obviamente mais experientes. Trata-se da mesma banda mas com outra formação e novas ideias.
NoiseRed: Com o lançamento do Ganeshu, como você enxerga a maturidade da banda? O que você sente que ‘sobreviveu’ daquela essência do Vol. 3 e o que mudou drasticamente na forma de vocês comporem em 2010/2025?”
Manu Joker: Temos características que sempre estarão presentes em nossa música, a base metalpunk, a espiritualidade, o groove, as referências vindas do cerrado brasileiro, da África, da Jamaica ou da Índia. Elementos de rap noventista, o metal extremo, a psicodelia, a velocidade e a lentidão. O Uganga é um caldeirão que funde esses e outros elementos desde o início, encontrou a sua assinatura no terceiro álbum e hoje, muito tempo depois, segue se aprimorando. Nada mudou drasticamente na nossa forma de compor mas o processo agora é mais criterioso e ao mesmo tempo leve. Renato Russo foi muito criticado quando disse que “disciplina é liberdade” mas eu concordo com ele.
NoiseRed: Sonoridade: “O Vol. 3 trazia uma pegada muito forte de crítica e peso. No Ganeshu, especialmente em faixas como ‘A Profecia’, sentimos uma influência forte da experiência na Amazônia e uma nova formação. Você diria que o Uganga de hoje é mais focado no ‘espiritual/conceitual’ do que o Uganga de 15 anos atrás?”
Manu Joker: Acho que não. A espiritualidade, e não propriamente as religiões, sempre esteve presente nos nossos álbuns e o “Vol. 3…” já era um trabalho conceitual a sua maneira. Ali foi o início de uma trilogia composta também pelos álbuns “Opressor” e “Servus” inspirada na Trimurti, a tríade do Hinduísmo. Essa tríade é composta por Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor/Transformador) e esses três trabalhos trazem esses elementos em suas essências. Óbvio que a pegada das letras, e falo enquanto letrista da banda, tem uma coisa mais contemporânea e pessoal, mas já tinha esse conceito meio que amarrando não só as músicas mas as artes gráficas dos 3 álbuns. Hoje ainda somos uma banda muito influenciada pelas coisas da espiritualidade, lembrando que espiritualidade liberta, e religiões prendem. A fé cega nunca nos interessou mas a voz interna sim, sempre. Antes de tudo somos uma banda livre.
NoiseRed: “Como um fã que guarda o CD físico de 2010, eu queria saber: como vocês estão vendo o lançamento físico do Ganeshu e dos materiais novos no futuro ? Existe um plano para edições especiais que acompanhem essa riqueza visual que vocês trouxeram do Pará?”
Manu Joker: Definitivamente iremos lançar material físico. Logo no início de 2026 sai o CD digipack com encarte de 16 páginas, bolachinha vermelha, várias Infos… A arte gráfica ficou por conta do Artur da Deadmouse Design e o cara não perde viagem. Na sequência queremos viabilizar também o vinil. Aquela capa grande com um vinil vermelho será uma bela e provocadora homenagem ao Mensageiro.

Sobre o Entrevistado: Manu Joker
Manu Joker é uma das figuras mais emblemáticas e respeitadas do underground brasileiro. Sua trajetória confunde-se com a própria história do metal extremo nacional, tendo sido o baterista do lendário Sarcófago durante a era do álbum Rotting (1989), um marco que influenciou toda a cena Black/Death Metal ao redor do globo.
À frente do Uganga desde a década de 90, Manu consolidou-se como um vocalista e letrista de visão única, fundindo o peso do Metal e do Hardcore com a espiritualidade, a cultura do cerrado e a brasilidade. Com mais de 30 anos de estrada, ele permanece como um porta-voz da resistência cultural, sempre equilibrando a agressividade sonora com a profundidade lírica.
Links Relacionados:
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