Dorsal Atlântica – Alea Jacta Est (1994) e a Coragem de Desafiar o Próprio Legado

Sábado à tarde, cerveja gelada na mesa, e eu resolvi fazer um movimento que muita gente hoje em dia esqueceu como é: tirei a poeira do meu velho tocador de CD e decidi colocar para rodar uma verdadeira relíquia do metal nacional. Não tenho essa joia em vinil, mas o disquinho de acrílico cumpre o papel com louvor. Estou falando de Alea Jacta Est, o quinto álbum de estúdio do Dorsal Atlântica, lançado originalmente em 1994 e distribuído pela gigante (e nossa eterna conhecida) Cogumelo Records.
Ouvir esse trabalho hoje, com o distanciamento do tempo, faz a gente perceber o tamanho da audácia de Carlos “Vandalo” Lopes e companhia. O Dorsal já era uma instituição do Thrash/Speed brasileiro, os caras que ajudaram a pavimentar o caminho para todo mundo que veio depois. Eles podiam ter feito um “Antes do Fim parte 2” e colhido os louros. Mas preferiram jogar os dados — afinal, Alea Jacta Est significa exatamente isso: “a sorte está lançada”.
Técnica, Peso e Crítica Social no Estômago
O disco é um divisor de águas. O Thrash reto e veloz deu lugar a uma sonoridade muito mais complexa, densa, flertando com o progressivo, cheio de quebras de tempo e riffs que exigem atenção. E as letras? Completamente cirúrgicas.
A trinca de abertura com “Thy Kingdom Come”, “Give People a Chance” e a violenta “R.I.P. (Racism, Ignorance, Prejudice)” mostra uma banda que não tinha medo de usar o metal extremo como ferramenta de protesto político e social. “R.I.P.” aborda racismo e preconceito de um jeito tão cru que chega a ser assustador o quanto ela continua atual no Brasil de hoje.
Outro destaque absurdo desse play é “Straitgate”, uma faixa mais longa, com quase 7 minutos, que dita o clima experimental do álbum, seguida pela energia de “Raise the Dead” e “Human Rights”. O Dorsal ali mostrava que o metal não precisava ser burro ou unidimensional para ser agressivo.
O álbum segue sem dar trégua na criatividade, passando por pedradas como “Virtual Reality”, “Black Messiah” e a reta final agressiva com “Summary Condemnation” e a instrumental de encerramento “Tribute to Gauguin”.
O Veredito do NoiseRed
Alea Jacta Est pode não ser o disco mais fácil ou unânime do Dorsal Atlântica para quem só busca a velocidade desenfreada dos primeiros anos, mas é, sem sombra de dúvidas, o trabalho mais corajoso e maduro deles. É um álbum que exige que você pare, bote o encarte na mão e realmente escute o que está acontecendo ali.
Se você tem esse CD encostado na prateleira ou só ouve por streaming, mude isso hoje. Faça como eu: tire a poeira do aparelho, aumente o som e respeite a história de quem teve colhões para mudar quando todo mundo queria que eles fizessem o mesmo de sempre.

Tracklist de Alea Jacta Est (1994):
- Thy Kingdom Come
- Give People a Chance
- R.I.P. (Racism, Ignorance, Prejudice)
- Straitgate
- Raise the Dead
- Human Rights
- Virtual Reality
- Last Act
- Black Messiah
- Loyal Legion of the Admirers
- Life Goes On (Vidcom Experiences)
- Take Time
- Summary Condemnation
- Tribute to Gauguin
Onde ouvir e encontrar:
Ouvir o álbum: [Spotify / YouTube]
Formato Físico: Confira o catálogo na Cogumelo Records
⚠️ OBSERVAÇÃO NOISERED: É importante ressaltar que não atribuímos notas aos álbuns resenhados. Acreditamos que a arte é subjetiva, o gosto é relativo e a música extrema não se encaixa em rankings ou métricas frias. O papel da resenha é propor o debate e a audição; o veredito final é sempre do seu próprio ouvido. Vivemos e respeitamos o underground! 🤘🔥
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